quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Para terminar na dúvida

Como todas as manhãs, ela passava.
E aquele moço, há meses, num mesmo lugar estava.
Naqueles mesmos horários ele a olhava; seus olhos acompanhavam a jangada do seu andar manco.
Não eram olhos gulosos, como daqueles que mastigam com os cílios a carne dura, mas olhar de quem fita curioso, admirado.
O moço insistente no ato de espiar, chama a atenção observadora da moça, atiçando aquele seu modo incomum de enxergar o mundo. Ele fita, fita, fita, e ela pensa: "que olhos disciplinados".
E mais uma manhã, ela passa, caminha acompanhada daquele mesmo olhar. E ela volta.
Sua cabeça, como sempre: erguida, mas nunca desatenta ao olhar cercante.
Sem pretensão de que ela o olhasse, declarou-se ao vento para não encará-la nos olhos: "estou apaixonado por você, mulher! As palavras soaram fortes, como se há tempo as tivesse sufocado na garganta.
A percepção da sinceridade do fitador não foi suficiente para fazê-la lançar-lhe o olhar, nem sequer se deu o trabalho de honrá-lo com qualquer gesto, simplesmente continuou a seguir seus passos, como toda manhã.
E a moça pensa e se culpa, ou se culpa e depois pensa.
Ela sabe que é natural a falta de reciprocidade, mas ficou "encasquetada" com a possibilidade de ter magoado o tal moço fitador, tão disciplinado!
Contudo, quase ao mesmo tempo, ela ri da experiência aparentemente insana para aqueles que tendem à análise pouco profunda dos acontecimentos engraçadinhos da vida.
No fim, ela resolve desvincular-se momentaneamente da superficialidade e pensa: "a experiência só pode ser insana desde que falte sanidade em algum de seus personagens".
E, desde então, lançou ao interno a seguinte indagação: "com quem está a insanidade"?
E como sempre, o desfecho da moça é sempre a dúvida...mas quanto a essa, talvez melhor que morra sem uma resposta.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Em especial para: mamãe, papai, irmãos, vovó, titios e titias!

Amores,


Não se preocupem com meu modo de expressão. Além do mais, nem sempre as datas das publicações correspondem à ordem cronológica dos acontecimentos na vida...rsrs!
Nem sempre publico os dizeres da alma na época correspondente aos seus acontecimentos!
Por tudo isso, não julguem meu estado interior pelas datas das postagens!
Esclarecidos?!


Beijos!


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana.

domingo, 16 de outubro de 2011

As várias faces de uma boba

Seja boazinha e compreensiva sem limites. Coloque o próximo acima de você. Tudo em prol da bondade e da vontade de ajudar.
Se estava pensando em fazer isso, morrendo de curiosidade quanto ao resultado, respire e pare imediatamente! Não há necessidade de cometer essa loucura por medo de morrer curioso, pois lhes conto...
Você se transformará em variadas formas, bem como atenderá a diversas finalidades para as quais cada uma delas lhe couber:
1- pode virar uma pata, para aqueles que acham que o jeitinho atrapalhado desse animalzinho encantador o faz parecer um bobinho, tontinho, com vontade de apertar de tão tanso;
2- pode virar égua, cavalo, burro, a depender de qual tipo de montaria carece a circunstância;
3- áh, mas pode também servir de muleta, caso a situação exija um apoio devido a deficiências temporárias;
4- pode transformar-se até em óculos - e quanto a este, já lhe aviso: haverá um dedinho teimoso, de unha comprida, trincando as lentes o tempo todo,  já que o sujeito insiste que o melhor é ter vista distorcida;
5 -ainda poderá transformar-se em joia preciosa...sabe, existem ocasiões em que elas caem bem;
6- e não poderia deixar de mencionar que você ainda poderá tomar forma de orelhão. Mas, quanto a esse, sinto lhe informar que funciona somente quando lhe é conveniente...e esse problema, infelizmente, penso que nem técnico conserta.

A respeito das demais formas, pois obviamente existem milhares de outras, a chamada tolerância se esgotou, informando, inclusive, que se cansou dessa turnê teatral.

Mas, enfim, a jovem boazinha, compreensiva e altruísta resolve estabelecer o limite ao que antes era infinita compreensão: gritou bem alto e concretou o RESPEITO, decretando-o como seu idioma oficial.
Além do mais, como mera consequência de tal decreto, oficialmente se declara solteira para os devidos fins.