terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Poema à boca fechada


Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"O homem em sua penúria não consegue mais se fazer compreender nem em se comunicar verdadeiramente com o outro por meio da língua; nesse estado em que tem obscuramente consciência, a língua se tornou um poder autônomo que aperta os homens com seus braços de fantasma e os impele para onde não querem ir. A partir do momento em que procuram se entender e se unir para uma obra comum, a loucura dos conceitos gerais ou mesmo das puras sonoridades verbais se apodera deles e, nessa impossibilidade em que estão para se exprimir, as criações coletivas de seu espírito levam por sua vez o sinal do desentendimento íntimo, na medida em que elas não correspondem mais as necessidades reais, mas somente ao nada dessas palavras e desse conceitos tirânicos; é assim que a humanidade acrescenta a seus outros males a submissão à convenção, ou seja, a um acordo entre as palavras e os atos que não corresponde a um acordo de sentimento." (Nietzsche em Der Fall Wagner).

No Lugar de Hades

Quando se der conta da impossibilidade de permanecer nessa realidade triste, procure subterfúgios e crie uma nova.
Às vezes é melhor mascará-la enquanto ainda são. Apenas quando dentro do limite dessa razão que ainda poderás dar dimensão aos riscos que se corre caso permita que ela se alastre e ganhe espaço em toda sua natureza humana.
Nem sempre o melhor é usar todo seu potencial; somos capazes de coisas terríveis.
Defenderei sua honra até a morte.
Não permitirei que qualquer ato de loucura desfigure tamanha torpeza.
Nem sei na verdade se existe palavra pra tudo que sinto, pra tudo que vejo.
Em momentos como esse peço pra ver um céu diferente do inferno.
Imagino agora um lugar vermelho nauseante, só assim consigo desejar que lá se queime, arda e não morra. 

Monólogo Triste

Amor em tempos de cólera, eu diria.
A ti darei um novo tempero.
O tempo em fumaça transformará a cólera e onde pensavas haver amor, descobrirá um espelho.
Oscilará então sua obsessão entre a imagem melhorada e você mesmo, até aprender a lidar com os lampejos de tal distorção.



Essa é a espera do volver do corpo.
Em queda livre, desejo afastá-lo desse seu abraço sem tato e em monólogo triste.









quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ascensão Caótica

Caos-Mental-Trabalhista-Previdenciário e as incompatibilidades vinculativas a essa minha inútil natureza dispersa de internalizações.

Meu gosto pelas coisas e pessoas é a medida do que as diferenciam dessa padronização desenfreada.

Eis um ponto de partida para tentar entender essa minha imensa dificuldade em enxergar afinidades.

Pode ser essa ascensão caótica um dos caminhos que leva à loucura?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Equação Atual da Ausência




A mais bela declaração de amor que recebi até hoje deixou de ser aquela escrita por outros punhos, para ser esta que venho tatuando na pele desde a primeira vez que nossos olhos se cruzaram.

Minha pele, corpo, lábios e todo resto do que sou constituída já ardem em febre a falta que ele me faz.

Recorro às lembranças, doces lembranças do início ao fim, sem ponto final

Não sei mais do meu querer: se é feliz, triste ou ilusório; só sei o que é saudade.

Agora posso dizer que compus na vida uma real equação de ausência; só agora posso gritar ao mundo que bem sei o que é sofrer por um amor que já não cabe mais no peito.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Só mais uma das previsibilidades humanas


Não desistem: Eu, Tu, Ela, Nós, Vós e Elas. É desse ponto que parto a caminho da tentativa de um entendimento acerca da origem de um círculo vicioso. E é engraçado que, seguindo essa premissa, é o popularmente desaconselhável que permite a obtenção de algum sucesso entre esses díspares e isolados objetivos. 

Comumente é assim, e exatamente por ser assim que não perdemos a tão conhecida característica humana da insatisfação eterna.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Missa do 7º dia sem morte morrida

É engraçado como parace que as coisas acontecem como deveriam ser. O mundo gira, gira, e eu sempre retomo essa mesma frase. É assim que a cada dia sou mais convicta quanto à inexistência de coincidências.
A sensação ruim foi embora, simplesmente me deixou. É sempre assim: mais dias, menos dias, ela  desgarra ou transforma-se. A minha transformou-se em aprimorados corpos já existentes: agora me restam imensa saudade e desejo, só que em águas tranquilas.
E o coração se abre para as alegrias e surpresas da vida, e decide receber os tantos presentes que ela tem me oferecido - devo definitivamente reconhecer que sou uma garota de sorte...
Vale dizer que não vou parar de escrever, tampouco de dançar...afinal de contas, quando o corpo acompanha a música, é que se ganha rítmo.
Eis, então, uma Missa de 7º dia - frisa-se - sem morte morrida!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aos apaixonados por passarinhos

Àqueles que amam um "semelhante" provido de alma de passarinho, escutem o que tenho a lhes dizer: eles permanecerão voando. Embora não tenham asas visíveis, o seu conceito de felicidade pertence aos céus.
E eu aqui permaneço, pois assim como vocês, nasci pra fazer meu ninho mais embaixo, de modo que possa constantemente adubar a terra. Prefiro um amor construído e constante a uns flashes repentinos de reciprocidade - olha só, quem diria que até a matemática ganharia espaço no meu Blog (risos)?!

Por fim, vale dizer também que, em que pese pensar desse modo, sei que o ato de ratificação algumas vezes é o caminho que nos leva à paz futura.
Sabe-se que é inútil prender seu amado pássaro na gaiola que constrói seu coração, mas sabe-se também que é imensamente pior AUTO conceituar-se covarde.
Deve ser realmente bem triste o arrependimento pelo que não se tentou. A inércia mata aos poucos a alma, e ao que lentamente morre, damos o nome de torturado.
Por tudo isso, eu diria que não se deixe envenenar o espírito pela inércia, mas também não se permita fazer parte de um círculo vicioso sem fim! 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A lei de acordo com o princípio da INeficiência

O vento soprará, soprará...até emaranhar os cabelos, enquanto experimenta uma alegria quase divina, mas como todas elas: fugaz.
Depois virá o sol: quente e brilhante, e debaixo daquele calor torrencial sentir-se-á capaz de enxergar a realidade fria e crua, percebendo que esta muda de tempos em tempos, e de que ela nada mais é do que fruto da percepção equívoca causada pelo conjunto sensorial desestabilizador de mentes.
Daí virá o rio em águas agitadas...e quase inutilmente insistirá na moldagem de suas rochas. O corpo sentir-se-á cansado e, aos poucos, tornar-se-á calmo novamente, obedecendo à lei natural. O desespero vai e volta, inconstante como a música que toca a alma.

No fim, não passarei de mais uma desparelhada,como um mais um nem sempre é igual a dois, e dois mais dois podem ser 4,5,6...
A vida não funciona exatamente conforme a lógica, mas, de uma forma ou de outra, acaba sempre respeitando uma certa legislação processual desajustada...

E tudo é bem simples assim - no final das contas, não é lógico, mas também não foge à regra.