Como todas as manhãs, ela passava.
E aquele moço, há meses, num mesmo lugar estava.
Naqueles mesmos horários ele a olhava; seus olhos acompanhavam a jangada do seu andar manco.
Não eram olhos gulosos, como daqueles que mastigam com os cílios a carne dura, mas olhar de quem fita curioso, admirado.
O moço insistente no ato de espiar, chama a atenção observadora da moça, atiçando aquele seu modo incomum de enxergar o mundo. Ele fita, fita, fita, e ela pensa: "que olhos disciplinados".
E mais uma manhã, ela passa, caminha acompanhada daquele mesmo olhar. E ela volta.
Sua cabeça, como sempre: erguida, mas nunca desatenta ao olhar cercante.
Sem pretensão de que ela o olhasse, declarou-se ao vento para não encará-la nos olhos: "estou apaixonado por você, mulher! As palavras soaram fortes, como se há tempo as tivesse sufocado na garganta.
A percepção da sinceridade do fitador não foi suficiente para fazê-la lançar-lhe o olhar, nem sequer se deu o trabalho de honrá-lo com qualquer gesto, simplesmente continuou a seguir seus passos, como toda manhã.
E a moça pensa e se culpa, ou se culpa e depois pensa.

Ela sabe que é natural a falta de reciprocidade, mas ficou "encasquetada" com a possibilidade de ter magoado o tal moço fitador, tão disciplinado!
Contudo, quase ao mesmo tempo, ela ri da experiência aparentemente insana para aqueles que tendem à análise pouco profunda dos acontecimentos engraçadinhos da vida.
No fim, ela resolve desvincular-se momentaneamente da superficialidade e pensa: "a experiência só pode ser insana desde que falte sanidade em algum de seus personagens".
E, desde então, lançou ao interno a seguinte indagação: "com quem está a insanidade"?
E como sempre, o desfecho da moça é sempre a dúvida...mas quanto a essa, talvez melhor que morra sem uma resposta.