domingo, 4 de novembro de 2012

Venho percebendo que, à medida que o tempo passa, sou mais chata, mais dura, mais realista, mais pessimista. Menos saciável, menos satisfeita, menos compreendida, muito menos sonhadora.
Partindo disso aí, cheguei a uma quase conclusão: horrorosa, mas minha - a escolha e exteriorizaçao do que se é, quando desvinculadas a qualquer recompensa condicionante, afastam cada vez mais o ser humano das verdades inventadas, tornando-os mais críticos, duros e tristes.
O maior problema desse inconformismo todo de quem se distancia cada vez mais dos sonhos, é que justamente estes e as fofíssimas verdades inventadas que anestesiam os coraçoes da dura realidade e permitem refúgio contra a crescente insanidade de "alguns" aí (felizmente ou infelizmente, estou falando de mim também) que se questionam demais e adotam como hábito o ato de desaprender. Apesar de tudo, tenho que confessar que meus refúgios eram bastante confortáveis e me permitiam mais momentos de "felicidade"e "satisfaçao", ainda que tivesse plena ciência quanto à inegável submissão de todos eles à espreita do grandioso Sistema e, mais ainda, à crueldade anti-humana dos seus fiéis súditos.
Diante das esperanças e sentimentos dos quais sinto saudades, diria que, depois desse "vômito" de desabafo, caso me pedissem opinião, talvez contentar-me-ia com o silêncio, já que realmente a dúvida é infinita quanto às vantagens de se acordar desse estado de comunhão em massa com o mundão afora.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Comme In Fault...

E naqueles olhos e braços o descanso que minha alma sozinha jamais foi capaz de encontrar.
Abrigo que me causa espanto, que anestesia enquanto me causa dor.
Me perdi em você por fusão, e agora sofro a dor da redefinição de completude.
Eu era completa. Eu era! Agora não sou mais.
Ah, que status  tormentoso de contradições!
Enquanto os normais abrem os braços e se arriscam pela felicidade de amar e ser amado eu bato continência ao sinal do toque de recolher.
E antes que um ou outro reinicie essa confissão absurda e inacreditavel  de identidades;
E antes que um ou outro definidamente se entregue a esse maravilhoso e odioso encontro de quase iguais,
Me declaro vencida pela ameaça ao que resta de minha sanidade.
E enquanto sou eu ou menos eu de um ângulo aqui ou acolá,
Eu lhe digo que é hora de dizer adeus.
A não ser que a ainda não descoberta força que venha de você seja capaz de vencer a enorme covardia que acompanha meu nome quando estou diante do que seus olhos me dizem.

sábado, 13 de outubro de 2012

Oh, Rosa, estás doente!
O verme invisível,
Que paira na noite,
No uivo da tempestade,

Encontrou seu leito
De alegria carmesim
E seu obscuro amor secreto
Tua vida destrói.

William Blake.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sobre a Morte de Um Rei Sem Trono

Auto entitulou-se rei.

Auto julgou-se tão belo; pouco sabe ele tamanha feiura sua torpeza causou-lhe diante dos olhos em mim abrigados.

Auto entitulou-se demasiado esperto; mal sabe ele que a esperteza, ao mesmo tempo que engrandece o ego daquele que diante do espelho permanece, envenena a alma em doses letais pelo tempo.

Seus olhos fixos e seus ombros endurecidos pela postura que ardilosamente o elevava demonstravam, de modo inequívoco, seu grande engano na árdua busca pela inteligência, pois longe, muito longe de ele entender o que ultrapassavam aqueles efêmeros laços que o mantiveram aquecidos, enquanto posicionava-se mestre no tabuleiro de seu jogo de três peças.

A inteligência do rei natimorto nasceu e logo morreu. Efêmera, satisfez desejos momentâneos, levantando muros de papel.

Quanto a mim, prefiro atentar-me aos ensinamentos dos sábios: em troca de tão passageira inteligência, transformo a dor, a raiva e a decepção nos mais dignos instrumentos da edificação da minha fortaleza.

Concretiza a fortaleza a mulher que não deseja servir como rótulo, desde que reconheça ela seu valor. Desejos morrem inúteis desacompanhados de uma postura condizente com a transformação do desejo em ato.

Entre pensamentos, palavras e atitudes - infinita distância -  somente as últimas definem seu caráter e me dizem que tu és.


 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Enquanto lia-me decifrava-me de maneira singela, apressando os passos para o lado oposto.


Face a face com o elo, libertei os olhos das correntes de dentro.

Desde então não houve mais saída, senão reconhecer que cores alteram a realidade, assim como fatos e flores.

E para o caso de ficar tudo cinza, deve haver tinta em algum pincel por aí...

sexta-feira, 25 de maio de 2012



Andei depressa para não rever meus passos

Por uma noite tão fugaz que eu nem senti

Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora

Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda

Que tão brutal percorre início, meio e fim

Destrincha a alma, corta fundo na espinha

Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia

Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu

Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia

Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa

Venho com força, mas sem nunca me esquecer

Que era fácil se perder por entre sonhos

E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem

Senti meu peito, atingido, se inflamar

E fui gostando do sabor daquela coisa

Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa

Veio cegar minha emoção de suspirar

Se eu soubesse que o amor é coisa assim

Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas

Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar

Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito

E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa

Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer

Que era fácil se perder por entre sonhos

E deixar o coração sangrando até enlouquecer

terça-feira, 24 de abril de 2012

Decifra-me

Existem certas coisinhas que, tratando-as como sementes, prefiro deixá-las sentirem-se com asas, para que nunca pensem que sou eu quem dará a direção, levando-as ao céu ou de volta às mãos. Deixo-as voar e, se tiverem que voltar, encontrarão minhas mãos espalmadas pra aterrizagem.


Sei que assim eu posso ganhá-las ou perdê-las para sempre, mas pelo menos se ficarem ou partirem, saberei que em nenhum dos casos houve imposição e que permaneci forte e de acordo com minha convicção quanto à coisa mais bela que existe e prezo antes do amor: a liberdade...


Para que me entendas, decifro-me.

domingo, 22 de abril de 2012

Espera

Há quem perceba que tudo é espera.
Na espera que se morre e renasce.


Espera é esperança, promessa, criação.
A espera reflete virtudes como paciência, persistência e coragem.
Mas espera pode ser medo - receio do presente e projeto de futuro, porque neste não se toca.


Hoje é a única coisa que realmente existe, o que faz do verbo esperar espécie de sinônimo de iludir-se.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Coroa de Estante

Emprego a distância quase necessária à paz perdida - efeito de escolhas.
E com o auxílio dos céus, tão azuis de onde os vejo, remeto-me à universalidade:
Do contexto de grão à imensidão do Saara - transporto o que faz de mim compacta aflição,
Fazendo desse mar particular espécie dor do mundo.


O grão desaparece em meio a tudo que não fiz por medo dessa grandiosa tarefa que a vida insiste em me mostrar pendente.

E eu reluto.
E eu finjo esquecer daqueles que me chamam: sua Rainha não se entrega à coroação,
Prefere os espinhos que sua carne faz sangrar.
No entanto, coberta de silêncio, ninguém a vê ou a escuta,
Sua grande redoma não permite que eles visualizem sua completa nudez.

Eis a forma que encontrou  para poupá-los de seu grande segredo: mistério entre pérolas, poder, amor e doação.

domingo, 15 de abril de 2012

O que se quer; o que se pode


Quisera não, pudera eu ser menos doce.
Quisera não, pudera eu saber ser quem não sou,
Quisera não, pudera eu ser mais desonesta e cruel
Quem sabe assim, só assim, preferissem eles a honestidade à doçura ao tratarem comigo sobre um sentimento que não têm.


Pudera não, quisera eu fechar esse ciclo de tormentos e assumir de uma vez esse papel de amor ao mundo num trono que é só meu e ao lado de quem eu toco, mas não me toca - senão numa comunhão de ideais que nos fariam acalentar milhares de corações.


Talvez chegada a hora de a estrela brilhar no céu daqueles que me esperam em sonhos de terras distantes.

domingo, 8 de abril de 2012

Olhos fechados no silêncio



Asas ao tato no silêncio onde te encontro
Entre lembranças a linha do horizonte lança um chamado: o que vc me traz agora?

Volto ao espelho,  o reflexo se multiplica.  Já não sou aquela de ontem.
Quando algo ou alguém realmente te toca, poro por poro se transforma e vc se reconstitui.

Onde há renovação há progresso,  onde há progresso há doação.
Onde há doação há vida, e nela a transformação só vale a pena quando é o amor que se faz presente.

Renove-se, permita-se abrir mão do velho, e não se preocupe tanto em conceituar essa nova matéria; muitas vezes os propulsores e frutos desse grande processo vão além do que as palavras podem exprimir.


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Wings to touch the silence where you meet
Among the skyline memories launches a call, what brings you to me now?

Returning to the mirror, the reflection is multipliedI am no longer that of yesterday.
When something or someone really touches you, pore by pore becomes you and reconstitutes itself.

Where there is no renewal progress, where there is no progress donation.
Where there is life giving, and the transformation it is only worthwhile when it is love that is present.

Renew yourself, allow yourself to let go of old, and not worry so much about conceptualizing this new field, often the thrusters and fruits of this great process to go beyond what words can express.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Aos ajustes


Áh, se eu fosse capaz, faria canção dessas linhas sem som que emaranhadas constroem teias do lado de dentro, num lugar já sem nome. Quem sabe assim, cantarolando o lindo e o feio delas frutos, alcançasse a harmonia que ausente causa dor nesse peito de ninguém.

Áh, se eu fosse capaz, desdobraria a angústia em papel vegetal, pintaria paisagens cor-de-rosa sem fins. Quem sabe assim, colorido só frente e verso a se ver, superaria o que jaz em tons de cinza e preto.

Áh, se eu fosse capaz, transmudaria o espaço no tempo 
e o traria pra mais perto do meu compasso tranquilo. Quem sabe assim, sentido maior tivessem as paisagens que criei nos versos que entre ouvidos vagueiam em busca de sincero descanso.

Áh, se eu realmente pudesse uma coisa qualquer, emprestaria meu colo ao seu colo por alguns instantes e ao Sr. das melodias o ajuste das batidas à música mais alegre do seu coração. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012




A liberdade é minha única ambição. Todo o resto não passa de um subterfúgio ilusório que criei com a esperança de haver caminhos que me levem até lá – num lugar que não existe senão em variadas outras formas de imposição. 


Lembrei-me disso agora: "Engano (- a crença no ideal-) não é cegueira, engano é covardia...toda conquista, todo o passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza em relação a si mesmo..." (Nietzsche, em Ecce Homo)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012


Os artistas em média fazem como todo o mundo, até pior - eles entendem mal o amor (...). Eles acreditam estar desinteressados no amor, porque preferem o bem de outro ser, muitas vezes contra seu próprio bem. Mas pretendem possuí-lo acima de qualquer outro ser...Até Deus, nesse caso, não é exceção. Está longe de pensar: "Não te diz nada, se te amo?" - torna-se terrível quando, por sua vez, não é amado. "L'amour - esta máxima se aplica tanto aos deuses como aos homens - est de tous les sentiments le plus égoïste et, par consequent, lorqu'il est blessé, le moins généreux"¹. (B. Constant)

Nietzsche em "O Caso Wagner".

¹ O amor é o mais egoísta de todos os sentimentos e, por conseguinte, quando ferido, o menos generoso.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

De Coração Aberto


Caros familiares, amigos e colegas! 

Hoje acordei com uma necessidade um pouco fora do habitual: 
Indistintamente, peço perdão a todos que de alguma forma possa ter magoado, feito qualquer mal, por mínimo que seja. Pelas atitudes inoportunas, razões de noites mal dormidas, pelas perguntas sem respostas, pelas vezes que não soube me expressar e fui mal interpretada. Por receber amor, carinho e dedicação e não saber dar em troca na mesma intensidade ou forma. Pelas palavras mal ditas, pelas palavras não pronunciadas. Pelos diversos pedidos de ajuda diretos e indiretos, com os quais não soube lidar.

Minha intenção sempre foi fazer o meu melhor, mesmo nos casos de falta de reciprocidade. A gente nem sempre age ou fala no momento certo; felizmente ou infelizmente a gente nem sempre corresponde às expectativas do próximo e, ainda que saibamos que isso é natural, impossível ter a real dimensão da dor alheia. Nem sempre damos o que o outro precisa ou deseja ainda que por diversas vezes merecedor, não porque simplesmente não queremos dar, mas porque não temos a oferecer de acordo.

Eu realmente não tenho alvos concretos para meus pedidos de perdão. Nem sei mais no que acredito, mas deve haver uma razão especial para estar acordada desde as quatro horas da manhã com essa necessidade de perdoar e ser perdoada.

Assim inicio 2012, pedindo perdão e desejando muita paz no coração e sabedoria para enfrentar os desafios da vida a todos meus familiares, amigos e colegas. 

O homem ao Piano


o homem ao piano   

toca uma música
que ele não compôs
canta palavras
que não são suas
em um piano
que não é seu.

enquanto
as pessoas à mesa
comem, bebem e conversam

o homem ao piano
termina
sem aplausos.

então
começa a tocar
uma nova canção
que ele não escreveu
começa a cantar
palavras
que não são suas
em um piano
que não é seu.

e como as pessoas
à mesa
continuam a
comer, beber e conversar

quando
ele termina
sem ser aplaudido
ele anuncia
pelo microfone, que vai
fazer uma pausa
de dez minutos

ele vai
até o banheiro
masculino
entra
em um reservado
tranca a porta
senta
puxa um baseado
e acende

satisfeito
de não estar
ao piano

e as
pessoas às mesas
comendo, bebendo e conversando
satisfeitas
por ele também
não estar lá

assim
acontece
em quase toda parte
com todos e com tudo
enquanto ferozmente
no interior
o
gueto negro incendeia.

Charles Bukowski